Ano 14 | Direção: Mauro Wainstock e Tania W.Benchimol.

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Carlos Alberto Felix dos Santos – “Vez por outra - e, nesses últimos tempos, com inusitada frequência - somos surpreendidos por declarações polêmicas de alguns membros da hierarquia católica, acerca do holocausto, sempre numa perspectiva sintomática e perigosamente revisionista. O fato de serem manifestações pontuais, em aberta divergência, inclusive, com a posição oficial do Vaticano sobre aquela tragédia histórica, não lhes retira, em absoluto, a gravidade, porque elas tocam e reabrem feridas que jamais poderão cicatrizar. Daí o justificado repúdio que provocam por parte da comunidade judaica, consciente de que o sacrifício daqueles seis milhões de vítimas inocentes, nas macabras câmaras de gás do abominável III Reich, perfazendo o inacreditável cômputo de 1/3 de toda a população judaica no mundo, não pode ser minimizado, sob quaisquer pretextos, por mais nobres que aparentemente sejam as intenções de quem as profere, como as que, infelizmente, vêm de ser feitas pelo Arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. Tolerá-las seria uma impiedosa e sacrílega afronta à memória dos mortos e aos sentimentos dos vivos, não só em relação aos que descansam em paz, como à segurança dos que acompanham preocupados o crescimento do antissemitismo e do neo-nazismo no mundo atual. Dom Dadeus Grings ainda está a dever uma retratação cabal à comunidade judaica e o respectivo pedido de perdão pelo que disse, quando entrevistado. Se, por acaso, foi mal interpretado, como alega, que venha, então, explicar-se. Exige-o, entre outras muitas razões, a responsabilidade do cargo de que está investido”.

Ethel W Guerstein - "Judeu é quem nasce do ventre judeu ou converso, sente-se judeu, denomina-se judeu e é reconhecido como tal, de acordo com Ben Gurion e nessa ordem. Esse é o verdadeiro quadrado mágico, sendo o primeiro item a condição sine qua non, sem a qual é como querer correr a Maratona sem saber caminhar... (por esse motivo não há prazo para realização da conversão; sempre é tempo). Continuando, retire-se um, e apenas um, dos outros lados da figura e o que resta é o embate intelectual árido que não conduz à conclusão alguma, pois cada caso tem de ser analisado em separado,às vezes usando de flexibilidade, outras vezes retesando a corda. Na criação do Estado de Israel foi negada a Lei de Retorno a um frei polonês de nome Daniel, registrado como Oswald Rufeisen, nascido de ambos os pais judeus ,apesar de ser sionista e de ter salvo vidas judias na Segunda Guerra, assim como inúmeros outros (caso de ventre judaico, tão somente). Em contrapartida, muitos e muitos pedidos de reconhecimento da condição judaica foram negados a indivíduos que serviram em guerras ao Exército de Israel como cidadãos, mas pelo fato de não terem nascido de ventre judaico não obtiveram o status ( caso de sentir-se judeu e denominar-se judeu). Outros obtiveram a cidadania, mas não o status judaico, pelo fato de possuírem apenas um avô judeu, como é o caso de muitos indivíduos oriundos da antiga União Soviética e faz-se necessária a sua conversão (nenhuma das alternativas). Qual de nós não conhece alguém que nasceu de ventre judaico, sente-se judeu, mas não denomina-se e não declara-se publicamente? Pelo que se pode observar, a questão é bem mais complexa do que imagina a nossa vã filosofia e pode ser que neste exato instante estejam passando pelo crivo da Knesset e pela Suprema Corte inúmeras requisições de cidadania e reconhecimento do judaísmo que sucitam discussões que adentram as madrugadas. A carta da sra Kagan que motiva a discussão, referia-se apenas às conversões imediatas e insinceras, realizadas superficialmente ,que em nada relacionam-se com os belos exemplos bíblicos. Deixemos, no entanto, o benefício da dúvida a todos aqueles que queiram unir-se a nós num apaixonamento tardio e a responsabilidade dobrada do cônjuge originalmente judeu de transmitir com retidão nossos valores à sua prole".

Wolf Girsas - "É com crescente tristeza que venho acompanhando, tanto por meio deste veículo extraordinário que é o Jornal ALEF, como por outros veículos informativos e comunicativos de nossa "comunidade organizada", discussões, debates, bate-bocas, troca de idéias ou, se preferirem, apenas uma saudável exposição de pontos de vista opostos, entre judeus, entre nós próprios, ao invés de utilizarmos toda essa energia oratória em prol unicamente de nossos irmãos. Muitas vezes são evocadas as escrituras sagradas em prol de um, outras vezes é evocado o sábio "fulano de tal" em prol de outro, além de sempre estarmos com o trecho "tal" da Torá em favor de uma ou outra idéia. E assim, passo a passo, já estamos tendo sucesso pleno onde diária e concretamente estamos construindo o piso duro, de ótima resistência aos esforços, totalmente dentro das normas que prescrevem a durabilidade deste piso duro, mas duro para com o outro judeu, piso de ótima resistência aos esforços de união e de aproximação, e totalmente dentro das normas de durabilidade para que nunca se quebre esta briga interna, onde nós mesmos estamos nos destruindo, lenta, paulatina e certamente em direção à construção de mais guetos e divisões de nós mesmos, para nós mesmos. Os guetos, atualmente, não precisam estar circundados por muros ou por soldados da antiga SS Nazista. Nós já estamos vivendo em guetos cada vez mais fechados, cada vez menores, e cada vez recusando mais irmãos de serem recebidos de braços abertos, aqui em nossa cidade do Rio de Janeiro. Sim, é verdade que existem os judeus formais, ortodoxos, liberais, reformistas, enfim, aqueles que vivem o judaísmo - cada um ao seu jeito, cada um de um jeito diferente do outro - em prol de outros judeus. Mas, infelizmente, isso é mais do que insuficiente. É visível esta situação onde os Srs. Mauricio Mittelman e Sander Fridman, somente para tomarmos estes últimos como exemplo pontual desta situação cada vez mais crescente, onde chega-se a evocar a Torá, por parte de um destes senhores, como menciona-se na edição eletrônica de Ano 14, Edição 1.294, 05 de abril de 2009, de domingo, para defender uma posição. E não existem críticas quanto a que posição estamos mencionando. Estamos apenas mencionando que houve a "defesa da opinião". Nada de errado com a a evocação e/ou a menção. Mas basta lembrarmos de uma situação real vivida há anos, onde fui com dois amigos a um jogo no nossa Maracanã. Assistimos animadamente a um jogo e, na saída, perguntei a opinião de meus amigos sobre um gol que ocorrera. Descobri que não tínhamos a mesma opinião - nenhum de nós três - apesar de estarmos no mesmo momento, no mesmo local, dentro do mesmo estádio, assistido diretamente ao mesmo jogo e termos visto tudo exatamente da mesma forma. Trazendo o exemplo para este caso: estamos firmemente defendendo posições interpretativas pessoais e brigando internamente contra nós mesmos. Nós judeus, que já somos poucos, estamos cada vez em menor número e não vislumbramos nenhuma espécie de recuperação, modesta que seja, do número de judeus no mundo – quanto mais aqui no Brasil, que é onde vivemos e brigamos entre nós mesmos. Caso não gostem do termo "briga" podem utilizar a expressão "discussão salutar", o que não mudará em nada o que realmente assistimos. Obtivemos a participação formal do Sr. Huáscar Cahuíde Lozano. Quantos outros leitores já não tiveram vontade de posicionarem-se a favor ou contra um ou outro, mas devem estar até mesmo cansados de tanta discussão que somente reforça e expressa claramente a desunião. Estamos somente dando reforço à desunião, à separação, à desagregação e ao terrível afastamento e à discriminação interna, ao invés de estarmos abrindo os braços aos nossos irmãos judeus, independentemente de seu posicionamento pessoal. Àqueles judeus cultos, que estudam anos à fio, que sabem ler o hebraico, que podem ter o privilégio de frequentarem uma sinagoga (e voltarem à pé para casa, sem o uso de qualquer outro meio de locomoção no shabat - ou seria shabes?) , que possuem tsitsit, talit e toda a indumentária desejada, para aqueles que podem contribuir permanentemente com recursos financeiros para as instituições, para aqueles que possuem o privilégio de não lutarem diariamente contra a fome, o desemprego e a vergonha de ter os filhos humilhados pela falta de emprego do pai, para estes em especial, por exemplo, por que não passam a lutar ferrenhamente contra esta desunião que graça entre nós, apesar das fotos e das promoções sociais que existem, onde apresentam-se locais limpos, bonitos, bem iluminados, com pessoas de sucesso, e demais elementos promocionais ? Senhores, por favor, vislumbrem que necessitamos nos unir, receber de braços abertos os mais pobres, os mais humildes, os humilhados pela situação economica, àqueles que foram abandonados ao longo do trajeto, que desejam ser tão judeus como qualquer outro, mas não possuem mais nenhuma condição, seja ela qual for. E passemos a interpretar a "Lei" em favor destes e de nossa união. Reservarei-me ao direito de não responder a qualquer "discussão" pois apenas estou expondo mais um outro ponto de vista e gostaria apenas de exaltar à união de todos".

Mauricio Mittelman - "Em respeito à Torá e para que fique claro aos leitores do Jornal Alef o que é correto e o que é incorreto, é necessário informar que a carta escrita pelo Sr. Sander Fridman a este jornal (edição 1.292 de 01/04/2009), onde o meu nome é citado, contém inúmeros erros. Por exemplo, o Sr. Fridman escreve que Ytro não era um converso. Isto não é verdade. Todos os sábios do povo judeu, entre eles Maimônides, Rashi e Nachmanides, afirmam que Ytro converteu-se ao judaísmo. Não poderia ser de outra forma, porque o próprio Talmud diz isso (Tratado Zevachim 116a). Que os leitores do jornal julguem se devem dar credibilidade às palavras de uma pessoa que rejeita um fato explicitamente relatado no Talmud e os comentários dos nossos grandes sábios".

Sander Fridman - "Fico contente com a substancial melhora no tom do Sr. Marcelo Mittelman. O debate em torno de idéias é uma das lindas tradições cultivadas pelos judeus nos Hedarim, Yeshivót e Midrashót, dos quais muitos souberam transmitir para suas práticas de estudo e aprendizagem em todos os âmbitos do conhecimento. Passar os comentários do objeto à pessoa, além de deselegante, não condiz com o preparo de muitos debatedores, e frustra o prazer de um bom debate, de um bom aprendizado. Quando o Sr. Mittelman refere que Yitro ter-se-ia convertido, assim como Ruth, muito tempo - e muitas páginas do tanach - depois, tenho certeza, com todo respeito que seu estudo certamente merece, que ele não entendeu o que leu - ver http://www.safed-kabbalah.com/Masters/Yitro.1.5762.htm e http://www.tfdixie.com/pbook.htm e http://www.torah.org/learning/rabbiwein/5768/yisro.html. Não se trata de dizer que um ou outro não abraçaram o judaísmo, seja como expresso na Torá, no caso de Ruth, seja de acordo com as lendas e tradições orais e místicas, sem porém qualquer referência a isso no Tanach, no caso de Yitro. Entretanto, no momento em que Yitro pediu para que Moisés, seu genro, se cuidasse mais, pois não aguentaria julgar as causas do povo, da manhã à noite, como vinha fazendo, e recomendou a Moisés que sistematizasse leis e instituísse juizes de instâncias sucessivas, e Moisés, que lhe honrava extremamente, obedeceu-lhe o conselho, instituiu juízes e subiu ao Monte Sinai de onde retornou com as Aséret aDivrót - os 10 mandamentos - (parashat Yitro), e, logo depois, com as regras para os julgamentos (Mishpatim), naquele momento, não havia ainda Religião Judaica, menos ainda Ritos de Conversão - menos ainda ritos ultra-ortodoxos! Como poderia Yitró ser convertido? A que teria ele se convertido, se não havia ainda judaísmo, e sim apenas Hebreus! Nem Yitró nem Ruth, por maiores que sejam os reconhecimentos a eles destinados por nossa tradição, não provinham de ventre judeu, nem eram conversos, por que não existia conversão, muito menos "tribunais de fé" que as "garantissem" e condicionassem para um enterro judeu: ambos teriam, sim, se unido ao povo judeu, abraçado sua história, seus valores e seu destino, e foram por isso reconhecidos, aceitos e lembrados. Foram "guerim", e ao mesmo tempo, modelos para os judeus de todos os tempos. Se pretendemos cultivar a coesão e a preservação da unidade entre os judeus, não se aconselham atitudes arrogantes de quem se acha essencialmente melhor do que os outros, judeus ou judias, guerim ou guerót. Se pretendemos respeito aos nossos direitos humanos, enquanto judeus, precisamos começar por merecê-lo, não discriminando dentro de nossa comunidade. Temos tantos inimigos, tantos que nos odeiam sem motivos; não precisamos fazer com que os que hoje nos querem bem, passem a nos desprezar, com ótimos motivos. Não há razões éticas ou históricas para isso. Mas é claro, aquele que, do judaísmo, só lhe restou o "sangue", o ventre, e o orgulho - que nem bem sabe de quê - poder-se-á sentir ameaçado em seus brios quando um "guer qualquer" (como anteriormente se falou) se mostrar tão mais meritório, tão mais conhecedor, tão mais envolvido com o amor às nossas tradições - claro e sempre, à sua maneira e à da comunidade judaica específica à qual se integra. Apartheid interno na comunidade?!? Segregar os judeus que trazem para a kehelá seus parceiros e parceiras não-judeus, dispostos a abraçar o judaísmo?!? Não há tradição, rabino ou texto de antigo sábio que possa hoje justificar tamanho crime, à luz de toda a humanidade. Ou pretendemos deixar a posição de luz dos povos por uma de escuridão e descaminho? Se é verdade que o meshiach chegará quando mais não precisarmos dele - resultado do tikun olam - e assim passarmos a merecê-lo, a integração dos diferentes, e até dos inimigos, conforme Isaias, parece ser uma etapa que não devemos evitar. E por que não começarmos por nossa própria casa?"

André Luiz de Oliveira Melo - "Talvez o que esteja acontecendo seja o fato de que muitas pessoas não estejam conseguindo entender o bom senso existente em todas as mensagens publicadas pelo o Dr. Sander Fridman. Não cabe discutir “preciosismos” e sim a maneira correta de acolhermos em nosso meio, com carinho e respeito, as pessoas que venham somar conosco. A nossa história é rica em apresentar indivíduos que – a partir de um determinado gesto ou atitude – se tornaram mais judeus do que os nascidos nos “conformes” das regrinhas criadas pelos homens. Parabéns Dr. Fridman. O senhor tem demonstrado, desde o começo dessa discussão, que é um agregador. Parabéns e muito obrigado por estar tentando somar, mesmo nadando contra uma forte corrente de pessoas que, talvez nem estejam percebendo, estão se apegando os velhos e carcomidos raciocínios que só fazem enfraquecer a nossa religião. Não pode haver discriminação alguma ao indivíduo que nasceu sob outra orientação religiosa e, de livre e espontânea vontade, decidiu juntar-se à nossa que, como visto na imprensa, está sempre sofrendo os piores tipos de discriminações. Este converso, acima de tudo é um corajoso. Merece respeito e admiração!" .