Vários
militares alemães tentaram matar Adolf Hitler
durante a II Guerra Mundial. Nenhum chegou tão
perto quanto Claus von Stauffenberg, um coronel de 37
anos que perdeu a mão direita, dois dedos da
esquerda e um olho nas batalhas do Norte da África.
Em 20 de julho de 1944, durante uma reunião no
quartel-general Wolfsschanze, na Prússia Oriental,
o oficial entrou na sala atrasado, pousou uma maleta
embaixo da mesa de mapas, a pouco mais de dois metros
de Hitler, e saiu. Ao ouvir a explosão, às
12:42h, teve certeza do sucesso da missão, batizada
de "Operação Valquíria".
Das 24 pessoas presentes, 18 ficaram feridas com gravidade
e quatro morreram. Entre os dois com escoriações
leves, estava o Führer: do cotovelo saía
um filete de sangue, na mão esquerda leves escoriações
e, nas pernas, estilhaços de madeira. À
1h da madrugada, o premiê alemão surgiu
em cadeia de rádio: "Uma pequena súcia
de oficiais idiotas, ambiciosos, inescrupulosos e, ao
mesmo tempo, criminosos, planejou eliminar-me. É
um pequeno bando que agora vai ser destruído
impiedosamente".
A ameaça foi cumprida à risca. Stauffenberg
e três outros conspiradores foram fuzilados na
mesma noite. Nos dias seguintes, mais de 110 pessoas
envolvidas foram condenadas à morte. A maioria
foi estrangulada. As famílias dos conspiradores
foram confinadas em campos de concentração.
Grávida, a viúva de Stauffenberg, Nina,
foi presa, e, em janeiro de 1945, deu à luz sua
quinta filha, Konstanze. Ela é a mãe do
economista e ator Philipp von Schulthess, de 35 anos,
que nesta entrevista fala sobre a saga de sua família,
de seu avô e comenta sua participação
no filme "Operação Valquíria",
em que o ator americano Tom Cruise representa o coronel
Stauffenberg. Sua avó, Nina, morreu aos 92 anos,
em 2006.
O
que ela lhe contou sobre seu avô? Ela sabia da
conspiração?
Ela falava de meu avô apenas quando lhe perguntávamos.
Mas nosso "opapa", como o chamávamos,
sempre estava presente. Minha avó sabia da conspiração,
mas não os detalhes. Foi assim que combinaram.
Ela também conhecia alguns dos outros conspiradores
e queimava documentos a pedido de meu avô. Dessa
forma, ela fazia parte da conspiração.
Confiava em meu avô e sabia que ele não
era uma pessoa que seguia ordens às cegas.
Ela
sabia que seu avô iria ele próprio cometer
o atentado?
Não, não sabia. Eles se despediram
dias antes do atentado, quando minha avó partiu
com as crianças para a casa dos sogros. Ele a
havia impedido de ficar, porque estava consciente de
que iria cometer o atentado. Essa foi a última
vez que se falaram.
O
que aconteceu com sua família depois do atentado?
Minha avó soube pelo rádio que houve um
atentado, que Hitler sobreviveu e que meu avô
foi o autor. Estava consciente de que era uma questão
de horas até que viessem buscá-la. E assim
aconteceu. Levaram-na para uma prisão da Gestapo,
onde a mantiveram isolada durante semanas para interrogá-la.
Segundo minha avó, foi terrível, principalmente
porque não tinha idéia do que havia acontecido
com o resto da família. A maioria foi presa.
As crianças, mandadas para um orfanato com outro
sobrenome. Heinrich Himmler disse: "Vamos acabar
com a família Stauffenberg até o último
membro". Felizmente, minha avó não
soube disso. Depois, ela foi mandada para um campo de
concentração. Como estava grávida
de minha mãe, recebeu alimentação
especial e foi tratada relativamente bem. Mas, pela
janela, podia observar como as outras mulheres viviam.
Sua própria mãe morreu nesse campo. Para
minha avó, foi importantíssimo estar grávida
porque, assim, quis sobreviver pelo bebê. Ela
havia prometido a meu avô que faria todo o possível
para sobreviver e cuidar das crianças. E essa
promessa foi seu principal mandamento.
Ela
nunca acusou o marido por ter colocado a família
nessa situação?
Sempre disse que não. Aparentemente, os conspiradores
eram homens extraordinários: suas viúvas
não casaram de novo. Acho que meus avós
eram totalmente apaixonados. Não existem cartas
deles, todas foram destruídas. Mas dela posso
dizer com certeza. Ela o amava, e os dois estavam unidos
nas convicções, nos ideais e nos valores.
Sua
mãe não conheceu o pai. Seus tios se lembram
dele?
Sim, todos os três se lembram dele, principalmente
o mais velho, que tinha 11 anos. Foi muito difícil
para eles, porque na escola haviam sido treinados para
idolatrar o grande Führer. E em 20 de julho souberam
que o próprio pai tentara matar esse ídolo.
Mas meu tio Berthold diz que aceitou depois de alguns
dias e se solidarizou com seu pai com seguinte lema:
se meu papai fez isso, então tem razão!
Qual
a importância do seu avô na família?
Discutir o atentado sempre foi difícil. Nunca
chegamos a um acordo, porque um historiador diz uma
coisa e outro historiador diz outra, já que os
fatos não são claros. Minha avó
costumava dizer que já não conseguia diferenciar
o que ela havia vivido e o que havia lido. Em relação
a sua personalidade, sempre concordamos. Deve ter sido
um homem muito simpático, que deixava as portas
abertas, no trabalho e em casa. Com ele, sempre se podia
discutir e melhorar o mundo. Um otimista e um pai muito
dedicado. Acho que eu teria adorado meu avô!
Quando
e como você tomou conhecimento de quem era seu
avô?
Lembro que minha mãe contou a meu irmão
e a mim a história de nosso avô quando
éramos crianças. Assim que aprendemos
a ler, ela nos deu um livro sobre nosso "opapa".
Como crianças, foi muito emocionante: nosso avô
tinha tentado matar Hitler, o vilão. O "opapa"
era o mocinho. Para mim, era um pirata: tinha um tapa-olho,
botas de andar a cavalo e apenas uma mão. Com
exceção da mão de gancho, ele tinha
tudo que eu imaginava num herói. Mas, depois
que cresci e li vários livros, cheguei a uma
imagem diferente. Não concordo com minha mãe,
por exemplo, sobre a religiosidade dele. Não
o considero muito religioso. Também acredito
que era muito moderno para sua época: tinha uma
espécie de cosmovisão democrática,
não no nosso sentido, mas no sentido de que ele
e seu entorno acreditavam em uma espécie de elitismo
que precisava ter uma classe votante e um Estado governado
por gente que assume a responsabilidade. Eu o considero
aberto a várias formas de governo e acho que
ele estava convencido de que era preciso dar o passo
seguinte para uma sociedade melhor.
Stauffenberg
participou da invasão da Polônia em 1939.
Em uma carta a sua avó, ele se mostrava favorável
a usar os poloneses como trabalhadores escravos. O que
você pensa disso?
Para mim, a carta não se encaixa na imagem que
tenho de meu avô. Mas minha imagem é a
construção de um avô que nunca conheci,
é feita a partir de livros que se concentram
principalmente em seu ato histórico, em 1944,
e não nos anos anteriores. Na carta, ele expressa
entusiasmo em relação à eficiência
da invasão da Polônia e surpresa pela rapidez
com a qual os poloneses se renderam. E ele via também
essa conquista como boa para a economia alemã.
Isso, lido hoje, parece inacreditável.
Como
era a relação dele com Hitler e com os
nazistas nos anos anteriores ao atentado?
Acredito que ele jamais foi simpático aos
nazistas. Nunca teria entrado no partido nacional-socialista,
porque conflitava com seus ideais. Existem fontes que
dizem que ele falou dois anos antes do atentado: "Não
é possível encontrar nenhum oficial no
quartel-general que mate o porco com uma pistola?"
Certamente se sentiu obrigado a seguir seu juramento
militar. Meu avô era um oficial de corpo e alma.
Mas seu caráter aparentemente não era
todo militar. E, alguns anos depois, mostrou sua consciência
e abandonou o juramento. Acho que ele tinha esse lado
já em 1939.
Quem
é Stauffenberg para você? Seu avô
ou uma figura histórica?
Uma pessoa de quem gosto muito e de quem levo algo dentro
de mim. Quando estou num lugar histórico, entretanto,
me torno racional e imagino a figura histórica.
Mas, quando li no roteiro a cena em que meu avô
e minha avó se despedem - e sei que é
a última vez que se vêem na vida -, comecei
a chorar.
Como
aconteceu sua participação no longa "Operação
Valquíria"?
Eu atuava em uma peça de teatro em Zurique quando
uma colega me avisou que seria feito um filme sobre
meu avô. Pedi a um diretor amigo em Los Angeles
que descobrisse quem era o responsável pelo elenco.
Quase simultaneamente meu primo me contou que uma pessoa
da produção o havia procurado querendo
entrar em contato com nossa família. De repente,
eu tinha o número do produtor e roteirista, Christopher
McQuarrie, e do produtor de elenco. Pouco tempo depois,
me apresentei pessoalmente. Os dois me pareceram simpáticos,
o que aparentemente era recíproco, porque logo
me disseram: "Cinco minutos depois de conhecê-lo,
sabíamos que o queríamos no filme".
Mas depois saiu uma entrevista com meu tio num jornal
alemão ofendendo a produção, com
um ataque pessoal a Tom Cruise. E, de repente, começou
um período de silêncio. Os produtores se
retiraram para refletir se realmente queriam complicar
as coisas me colocando na equipe e começando
uma briga familiar com publicidade negativa. Três
semanas mais tarde, eles me avisaram: "Temos um
papel para você. Não é muito importante,
mas temos!"
Qual
a importância de atuar em um filme sobre seu avô?
Como ator, é importante. De certa maneira, vejo
como um presente de meu "opapa": a oportunidade
apareceu no momento em que eu queria entrar no mundo
do cinema. Durante a filmagem, me perguntaram se seria
estranho ver Tom Cruise como meu avô. Mas não
foi. No set, havia uma atmosfera profissional.
Hoje
em dia existem grupos de ultradireita no mundo inteiro.
Você vê isso como um perigo?
Considero um perigo o radicalismo e o fanatismo de qualquer
credo político. Independentemente do fundo familiar,
os alemães são particularmente sensíveis
quando se trata de ultradireitistas. Hoje em dia, não
tenho um medo concreto, mas não deveríamos
nunca esquecer nosso passado. Existem outras formas
de radicalismo que ameaçam o mundo, como o fanatismo
religioso. É importante que não deixemos
de nos preocupar com todas as formas de radicalismo,
que assumamos a responsabilidade e não permitamos
que nenhum tipo de radicalismo se fortaleça.
Acho que hoje somos mais adultos em relação
à manipulação. Somos mais bem informados,
não é mais tão fácil nos
deixarmos levar pelos meios de comunicação.
E vivemos em um Estado de direito que funciona. No início
do século XX, não era assim. Aprendemos
com a História, e o que aconteceu com a Alemanha
não pode se repetir nunca mais. Nem aqui nem
em nenhum outro lugar do mundo.
Comente,
envie a sua opinião!
Página
inicial do Jornal ALEF: acesse aqui.