A
visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad,
ao Brasil, apesar de ter sido adiada, gerou bastante
polêmica. Como o senhor vê essa aproximação
entre Brasil e Irã?
Infelizmente, a questão iraniana é de
extrema importância para Israel. O fato de o atual
regime defender sua capacidade nuclear e de ser bastante
antiisraelense, inclusive negando o direito do Estado
de Israel existir, é uma fonte de preocupação
para nós. É uma ameaça concreta
à nossa segurança e, também diria,
à existência de Israel. Como parte do processo
de diálogo com outros países, estamos
sempre expressando nossas preocupações
em relação ao Irã. Tenho certeza
de que nosso chanceler, durante sua visita ao Brasil,
deverá discutir esse assunto com o governo brasileiro.
A visita de Ahmadinejad se tornou uma questão
interna para o Brasil, que não tem nada a ver
conosco. Infelizmente, Ahmadinejad, com sua personalidade,
é um problema por si só. É uma
pessoa que nega o Holocausto e que fala sobre uma conspiração
judaica contra o mundo. Ele é alvo de críticas
não só no Brasil, mas em todo o mundo.
A
posição brasileira é de que uma
política de aproximação, nesses
casos, é melhor do que o isolamento. O senhor
concorda?
Acreditamos que a única forma de mudar o curso
dos acontecimentos no Irã, e, especialmente,
garantir que o país não terá uso
militar para seu programa nuclear, é por meio
da pressão. Pressão econômica e
política. É a única forma. Mas
Israel e Brasil não precisam concordar em tudo.
Temos o diálogo aberto com o governo brasileiro
e o nosso papel é expressar nossa posição.
E ouvir atentamente o que eles têm a dizer.
Ao
comentar as eleições no Irã, o
presidente Lula acabou sendo criticado por minimizar
a possibilidade de irregularidade na contagem dos votos.
Como o senhor analisa a postura do presidente Lula nesse
caso?
Acho que devemos aguardar e ver se haverá algum
tipo de manifestação oficial do governo
brasileiro. O fato é que as coisas estão
mudando rapidamente no Irã. Acredito que todos
devemos estar atentos, inclusive o governo brasileiro,
sobre o que está acontecendo lá, especialmente
para ter certeza de que o regime não usará
a força e que pessoas não tenham mais
que morrer em nome da democracia.
O
presidente Lula já esteve em mais de 100 países
desde 2003, mas ainda não fez uma visita oficial
a Israel. Esse fato diz alguma coisa sobre a relação
entre os dois países?
Primeiro, gostaria de dizer que temos uma relação
muito boa com o Brasil. Não apenas política,
mas também econômica. E estamos trabalhando
duro para ampliar essa relação, pois vemos
o Brasil como uma liderança nas relações
internacionais, especialmente na América Latina.
Um dos pontos mais importantes é a assinatura
do tratado de livre comércio com o Mercosul,
que aguarda a ratificação do Congresso
brasileiro. Em breve, poderemos ver esse acordo na prática,
o que nos permitirá dobrar a corrente de comércio
entre os dois países nos próximos dois
ou três anos, que atualmente é de US$ 1,5
bilhão. Politicamente, temos uma relação
muito boa também. Há consultas políticas
frequentes entre os chanceleres. Esse ano, será
aqui no Brasil, no ano passado, foi em Jerusalém.
Temos duas importantes visitas previstas ao Brasil:
a do presidente de Israel, que está prevista
para novembro, e do nosso chanceler, que visitará
Brasília no dia 22 de julho.
Então
o convite ao presidente Lula está feito?
Sim, o convite está aberto. Esperamos que ele
possa fazer essa visita até 2010, mas não
há uma data prevista.
E
o fato de o presidente Lula ter visitado tantos países,
inclusive da região, países árabes,
e ainda assim não ter ido a Israel... Como o
senhor vê isso?
Não acredito que isso tenha a ver com política,
um sinal de descontentamento em relação
a Israel ou algo do tipo. Se essa versão existe,
ela está distorcida. Essas visitas de chefes
de Estado precisam ser muito bem coordenadas, é
preciso encontrar o melhor momento para os dois lados.
O fato de ele não ter visitado Israel ainda não
tem implicações políticas. Tenho
certeza de que ele irá a Israel até o
final de seu mandato. A visita de nosso ministro das
Relações Exteriores ao Brasil é
a primeira dos últimos 15 anos. Isso não
significa que Israel estivesse descontente com a política
externa brasileira. Muita coisa tem de ser mobilizada.
O
governo brasileiro tem dito que tem interesse em ampliar
sua participação nas negociações
de paz e, inclusive, essa mensagem foi reforçada
pelo chanceler Amorim, durante sua última visita
a Jerusalém, em janeiro. O senhor acha que o
Brasil está preparado para dar esse passo?
Apenas para complementar sua pergunta anterior: o ministro
Amorim já esteve diversas vezes em Israel. Sua
última visita foi apenas há alguns meses.
Nós nem sempre concordamos em tudo. E isso é
parte do processo de diálogo. Temos nosso ponto
de vista, nossas posições, e é
muito importante também ouvir cuidadosamente
o que o Brasil tem a dizer. Eu sei que o presidente
Lula e o ministro Amorim gostariam de ver um papel mais
ativo do Brasil no processo de paz do Oriente Médio.
O interesse brasileiro, a princípio, é
bem-vindo. Nós entendemos que o Brasil quer ter
um papel mais ativo e acreditamos que isso possa ser
produtivo. Mas claro, o processo de paz é um
assunto muito delicado. Qualquer país interessado
em desempenhar um papel positivo nesse processo precisa
compreender muito bem não apenas um lado, mas
os dois lados. E agir de acordo e de forma imparcial.
Precisa ainda entender a preocupação do
Estado israelense com a questão da segurança.
Qualquer governo de Israel gostaria de ver um processo
de paz realmente seguro, estável, não
apenas em relação aos palestinos, mas
também com sírios, libaneses e outros
países da região. Mas temos também
nossas preocupações, sobretudo com a segurança,
com nossa história. Existem pontos muito complexos
e delicados, como a questão de Jerusalém,
como resolveremos a questão dos refugiados palestinos,
que estão não apenas em Gaza, mas também
em outros países árabes. Nós não
queremos assinar um acordo de paz e depois entrar em
uma nova rodada de conflitos. Portanto, qualquer país
que queira participar do processo de paz deve entender
os dois lados. Eu diria que essa é uma condição
básica, ou seja, ser imparcial e conhecer os
dois lados. E é isso que esperamos não
apenas do governo brasileiro, mas de qualquer outro
país. Esperamos que todos prestem também
atenção às nossas preocupações.
O
assessor para assuntos internacionais do presidente
Lula, Marco Aurélio Garcia, disse, na época
da ofensiva israelense na Faixa de Gaza, em janeiro,
que Israel estaria adotando "terrorismo de Estado".
Como essas palavras repercutem, em sua opinião?
Seria um sinal de que o Brasil não estaria agindo
de forma imparcial?
Nós estamos cientes do que foi dito. E não
acho que esse tipo de comentário seja produtivo
para um país com interesse em desempenhar um
papel mais ativo no processo de paz no Oriente Médio.
É contraproducente. Mas também sabemos
que essas palavras foram dele especificamente. Não
vimos esse tipo de reação do ministro
das Relações Exteriores e tampouco, oficialmente,
do presidente Lula. Preferimos pensar que esse não
é um reflexo da posição brasileira.
Caso contrário, seria totalmente parcial e mostraria
falta de conhecimento sobre o que está acontecendo
em nossa região. Essas palavras não contribuem
para o processo de paz.
O
governo brasileiro tem defendido abertamente, inclusive
na ONU, a posição síria sobre as
Colinas de Golã, território que atualmente
está sob jurisdição de Israel.
O senhor teve a oportunidade de discutir esse assunto
com o governo brasileiro?
Isso não é uma novidade. O Brasil vem
repetindo seu voto na ONU ano após ano. O Brasil
não é o único país do mundo
que condena Israel nessa questão. Como eu disse,
não precisamos ter a mesma posição
em tudo. Quando o assunto estiver sobre a mesa com os
sírios, certamente vamos considerar a opinião
de todos os países. Mas, claro, a questão
principal aqui é a segurança de Israel.
E é isso que gostaríamos que o mundo,
o Brasil, entendesse melhor. As Colinas de Golã
são estratégicas para o controle do norte
de Israel.
A
Venezuela está em processo de adesão ao
Mercosul e o país não tem relações
diplomáticas com Israel. A entrada da Venezuela
no grupo pode prejudicar as relações do
Mercosul com Israel?
Não acredito que isso traria implicações
para a nossa relação comercial com o Mercosul
ou com qualquer dos quatro países. Durante anos
e anos tivemos ótimas relações
com o povo venezuelano e com o governo. Essa decisão
de cortar relações diplomáticas
com Israel é uma decisão do atual presidente.
Esperamos e rezamos pelo momento no qual nossas relações
com a Venezuela possam ser retomadas. Sabemos que a
povo da Venezuela não é antiisraelense,
de forma alguma.
O
pronunciamento do primeiro-ministro de Israel, Binyamin
Netanyahu, no último dia 14 de junho, foi bastante
esperado. No entanto, alguns jornalistas argumentaram
que a menção a um Estado palestino teria
sido feita "a contragosto". Como o senhor
avalia esses comentários? Além disso,
o senhor acha que o atual governo israelense está
realmente comprometido com a ideia de um Estado palestino?
Antes de tudo, não há como saber o que
se passa no coração do primeiro-ministro
Netanyahu. Por isso, não é possível
afirmar que ele não queria dizer aquilo. Como
alguém pode saber? O importante na política
é o que se diz. O que eles pensam, o que eles
falam com suas esposas à noite, eu não
sei. O que eu sei é o que está no discurso,
e posso dizer que foi um discurso muito importante.
Por um lado, abriu a possibilidade de uma negociação
de paz com os palestinos e com o restante do mundo árabe.
E, por outro, também expressou nossas preocupações.
Eu só posso lamentar a reação de
alguns setores do lado palestino e do mundo árabe,
que foi mais ou menos negativa. Eu acredito que o mais
importante é que estamos prontos para ver um
Estado palestino e que vamos começar as negociações.
Isso não quer dizer que o primeiro-ministro deveria,
já no discurso, fazer concessões. Não
era nem espaço ou o momento certo para isso.
O assunto deve ser discutido na mesa de negociações.
Eu gostaria de ver, primeiro do lado palestino, uma
disposição para começar a negociação
sem pré-condições. Os palestinos
podem trazer suas preocupações para uma
discussão posterior. Gostaria também de
ver a contribuição de outros países
árabes ao processo de paz, começando pela
normalização das conversas com Israel.
Não significa que veremos amanhã uma embaixada
de Israel na Arábia Saudita, mas é importante
que os países árabes comecem a fazer algum
tipo de contato com Israel. Isso mostraria à
população de Israel que eles estão
dispostos a contribuir para o processo, e não
apenas sentados ao lado, esperando que palestinos e
israelenses façam alguma coisa. Precisamos do
apoio de todos os países árabes. E gostaríamos
de ver um sinal do lado deles.
Publicado
na BBC Brasil
Comente,
envie a sua opinião!
Página
inicial do Jornal ALEF: acesse aqui.