Ano 14 | Direção: Mauro Wainstock e Tania W.Benchimol.

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ENTREVISTA

Giora Becher
embaixador de Israel no Brasil


 

A visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil, apesar de ter sido adiada, gerou bastante polêmica. Como o senhor vê essa aproximação entre Brasil e Irã?
Infelizmente, a questão iraniana é de extrema importância para Israel. O fato de o atual regime defender sua capacidade nuclear e de ser bastante antiisraelense, inclusive negando o direito do Estado de Israel existir, é uma fonte de preocupação para nós. É uma ameaça concreta à nossa segurança e, também diria, à existência de Israel. Como parte do processo de diálogo com outros países, estamos sempre expressando nossas preocupações em relação ao Irã. Tenho certeza de que nosso chanceler, durante sua visita ao Brasil, deverá discutir esse assunto com o governo brasileiro. A visita de Ahmadinejad se tornou uma questão interna para o Brasil, que não tem nada a ver conosco. Infelizmente, Ahmadinejad, com sua personalidade, é um problema por si só. É uma pessoa que nega o Holocausto e que fala sobre uma conspiração judaica contra o mundo. Ele é alvo de críticas não só no Brasil, mas em todo o mundo.

A posição brasileira é de que uma política de aproximação, nesses casos, é melhor do que o isolamento. O senhor concorda?
Acreditamos que a única forma de mudar o curso dos acontecimentos no Irã, e, especialmente, garantir que o país não terá uso militar para seu programa nuclear, é por meio da pressão. Pressão econômica e política. É a única forma. Mas Israel e Brasil não precisam concordar em tudo. Temos o diálogo aberto com o governo brasileiro e o nosso papel é expressar nossa posição. E ouvir atentamente o que eles têm a dizer.

Ao comentar as eleições no Irã, o presidente Lula acabou sendo criticado por minimizar a possibilidade de irregularidade na contagem dos votos. Como o senhor analisa a postura do presidente Lula nesse caso?
Acho que devemos aguardar e ver se haverá algum tipo de manifestação oficial do governo brasileiro. O fato é que as coisas estão mudando rapidamente no Irã. Acredito que todos devemos estar atentos, inclusive o governo brasileiro, sobre o que está acontecendo lá, especialmente para ter certeza de que o regime não usará a força e que pessoas não tenham mais que morrer em nome da democracia.

O presidente Lula já esteve em mais de 100 países desde 2003, mas ainda não fez uma visita oficial a Israel. Esse fato diz alguma coisa sobre a relação entre os dois países?
Primeiro, gostaria de dizer que temos uma relação muito boa com o Brasil. Não apenas política, mas também econômica. E estamos trabalhando duro para ampliar essa relação, pois vemos o Brasil como uma liderança nas relações internacionais, especialmente na América Latina. Um dos pontos mais importantes é a assinatura do tratado de livre comércio com o Mercosul, que aguarda a ratificação do Congresso brasileiro. Em breve, poderemos ver esse acordo na prática, o que nos permitirá dobrar a corrente de comércio entre os dois países nos próximos dois ou três anos, que atualmente é de US$ 1,5 bilhão. Politicamente, temos uma relação muito boa também. Há consultas políticas frequentes entre os chanceleres. Esse ano, será aqui no Brasil, no ano passado, foi em Jerusalém. Temos duas importantes visitas previstas ao Brasil: a do presidente de Israel, que está prevista para novembro, e do nosso chanceler, que visitará Brasília no dia 22 de julho.

Então o convite ao presidente Lula está feito?
Sim, o convite está aberto. Esperamos que ele possa fazer essa visita até 2010, mas não há uma data prevista.

E o fato de o presidente Lula ter visitado tantos países, inclusive da região, países árabes, e ainda assim não ter ido a Israel... Como o senhor vê isso?
Não acredito que isso tenha a ver com política, um sinal de descontentamento em relação a Israel ou algo do tipo. Se essa versão existe, ela está distorcida. Essas visitas de chefes de Estado precisam ser muito bem coordenadas, é preciso encontrar o melhor momento para os dois lados. O fato de ele não ter visitado Israel ainda não tem implicações políticas. Tenho certeza de que ele irá a Israel até o final de seu mandato. A visita de nosso ministro das Relações Exteriores ao Brasil é a primeira dos últimos 15 anos. Isso não significa que Israel estivesse descontente com a política externa brasileira. Muita coisa tem de ser mobilizada.

O governo brasileiro tem dito que tem interesse em ampliar sua participação nas negociações de paz e, inclusive, essa mensagem foi reforçada pelo chanceler Amorim, durante sua última visita a Jerusalém, em janeiro. O senhor acha que o Brasil está preparado para dar esse passo?
Apenas para complementar sua pergunta anterior: o ministro Amorim já esteve diversas vezes em Israel. Sua última visita foi apenas há alguns meses. Nós nem sempre concordamos em tudo. E isso é parte do processo de diálogo. Temos nosso ponto de vista, nossas posições, e é muito importante também ouvir cuidadosamente o que o Brasil tem a dizer. Eu sei que o presidente Lula e o ministro Amorim gostariam de ver um papel mais ativo do Brasil no processo de paz do Oriente Médio. O interesse brasileiro, a princípio, é bem-vindo. Nós entendemos que o Brasil quer ter um papel mais ativo e acreditamos que isso possa ser produtivo. Mas claro, o processo de paz é um assunto muito delicado. Qualquer país interessado em desempenhar um papel positivo nesse processo precisa compreender muito bem não apenas um lado, mas os dois lados. E agir de acordo e de forma imparcial. Precisa ainda entender a preocupação do Estado israelense com a questão da segurança. Qualquer governo de Israel gostaria de ver um processo de paz realmente seguro, estável, não apenas em relação aos palestinos, mas também com sírios, libaneses e outros países da região. Mas temos também nossas preocupações, sobretudo com a segurança, com nossa história. Existem pontos muito complexos e delicados, como a questão de Jerusalém, como resolveremos a questão dos refugiados palestinos, que estão não apenas em Gaza, mas também em outros países árabes. Nós não queremos assinar um acordo de paz e depois entrar em uma nova rodada de conflitos. Portanto, qualquer país que queira participar do processo de paz deve entender os dois lados. Eu diria que essa é uma condição básica, ou seja, ser imparcial e conhecer os dois lados. E é isso que esperamos não apenas do governo brasileiro, mas de qualquer outro país. Esperamos que todos prestem também atenção às nossas preocupações.

O assessor para assuntos internacionais do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, disse, na época da ofensiva israelense na Faixa de Gaza, em janeiro, que Israel estaria adotando "terrorismo de Estado". Como essas palavras repercutem, em sua opinião? Seria um sinal de que o Brasil não estaria agindo de forma imparcial?
Nós estamos cientes do que foi dito. E não acho que esse tipo de comentário seja produtivo para um país com interesse em desempenhar um papel mais ativo no processo de paz no Oriente Médio. É contraproducente. Mas também sabemos que essas palavras foram dele especificamente. Não vimos esse tipo de reação do ministro das Relações Exteriores e tampouco, oficialmente, do presidente Lula. Preferimos pensar que esse não é um reflexo da posição brasileira. Caso contrário, seria totalmente parcial e mostraria falta de conhecimento sobre o que está acontecendo em nossa região. Essas palavras não contribuem para o processo de paz.

O governo brasileiro tem defendido abertamente, inclusive na ONU, a posição síria sobre as Colinas de Golã, território que atualmente está sob jurisdição de Israel. O senhor teve a oportunidade de discutir esse assunto com o governo brasileiro?
Isso não é uma novidade. O Brasil vem repetindo seu voto na ONU ano após ano. O Brasil não é o único país do mundo que condena Israel nessa questão. Como eu disse, não precisamos ter a mesma posição em tudo. Quando o assunto estiver sobre a mesa com os sírios, certamente vamos considerar a opinião de todos os países. Mas, claro, a questão principal aqui é a segurança de Israel. E é isso que gostaríamos que o mundo, o Brasil, entendesse melhor. As Colinas de Golã são estratégicas para o controle do norte de Israel.

A Venezuela está em processo de adesão ao Mercosul e o país não tem relações diplomáticas com Israel. A entrada da Venezuela no grupo pode prejudicar as relações do Mercosul com Israel?
Não acredito que isso traria implicações para a nossa relação comercial com o Mercosul ou com qualquer dos quatro países. Durante anos e anos tivemos ótimas relações com o povo venezuelano e com o governo. Essa decisão de cortar relações diplomáticas com Israel é uma decisão do atual presidente. Esperamos e rezamos pelo momento no qual nossas relações com a Venezuela possam ser retomadas. Sabemos que a povo da Venezuela não é antiisraelense, de forma alguma.

O pronunciamento do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, no último dia 14 de junho, foi bastante esperado. No entanto, alguns jornalistas argumentaram que a menção a um Estado palestino teria sido feita "a contragosto". Como o senhor avalia esses comentários? Além disso, o senhor acha que o atual governo israelense está realmente comprometido com a ideia de um Estado palestino?
Antes de tudo, não há como saber o que se passa no coração do primeiro-ministro Netanyahu. Por isso, não é possível afirmar que ele não queria dizer aquilo. Como alguém pode saber? O importante na política é o que se diz. O que eles pensam, o que eles falam com suas esposas à noite, eu não sei. O que eu sei é o que está no discurso, e posso dizer que foi um discurso muito importante. Por um lado, abriu a possibilidade de uma negociação de paz com os palestinos e com o restante do mundo árabe. E, por outro, também expressou nossas preocupações. Eu só posso lamentar a reação de alguns setores do lado palestino e do mundo árabe, que foi mais ou menos negativa. Eu acredito que o mais importante é que estamos prontos para ver um Estado palestino e que vamos começar as negociações. Isso não quer dizer que o primeiro-ministro deveria, já no discurso, fazer concessões. Não era nem espaço ou o momento certo para isso. O assunto deve ser discutido na mesa de negociações. Eu gostaria de ver, primeiro do lado palestino, uma disposição para começar a negociação sem pré-condições. Os palestinos podem trazer suas preocupações para uma discussão posterior. Gostaria também de ver a contribuição de outros países árabes ao processo de paz, começando pela normalização das conversas com Israel. Não significa que veremos amanhã uma embaixada de Israel na Arábia Saudita, mas é importante que os países árabes comecem a fazer algum tipo de contato com Israel. Isso mostraria à população de Israel que eles estão dispostos a contribuir para o processo, e não apenas sentados ao lado, esperando que palestinos e israelenses façam alguma coisa. Precisamos do apoio de todos os países árabes. E gostaríamos de ver um sinal do lado deles.

Publicado na BBC Brasil


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