Psicoterapia
“versus”
Medicamentos Psiquiátricos no século XXI”
Dr.Sander Fridman
Dificuldades amorosas, relacionamentos sociais problemáticos,
traumas e perdas; sofrimentos associados às escolhas vitais,
no trabalho, na família, ou aos dons e habilidades desperdiçados;
limitações intelectuais graves desde o nascimento
ou adquiridas; dificuldades com a administração
das oportunidades econômicas e profissionais: estes são
alguns dos dramas que vivem as pessoas que buscam ajuda nos consultórios
psiquiátricos e psicoterápicos.
Nem sempre, entretanto, são assim tão claros estes
dramas para os pacientes. Insônia, melancolia, ansiedade,
uso problemático de bebidas alcoólicas, ou de drogas,
falta de atenção, irritabilidade, comportamento
agressivo, violência - são todos sintomas que se
declaram nos consultórios, e que se buscam suprimir com
intervenções médicas breves, mesmo que resultem,
muitas vezes, em tratamentos medicamentosos por tempo indeterminado
- como se os sintomas não fossem sintomas de algo, de um
outro problema – o verdadeiro. Aqui, duas possibilidades: que
o sintoma seja sintoma de uma doença (como nas ciências
médicas); ou que o sintoma seja sintoma do conflito entre
uma necessidade, uma expectativa, uma oportunidade imaginada e
uma impotência não antecipada e não aceita.
Há de se lembrar que, desde os anos ’80, com a moderna
classificação Norte-Americana das Desordens Mentais,
o termo “doença mental” foi aposentado. Os profissionais
de Saúde Mental reconheceram que as questões dirigidas
à natureza do “adoecer” mental jamais puderam ser respondidas
pelas imagens obtidas de qualquer microscópio. Nenhum achado
do cérebro jamais permitiu o diagnóstico de “doenças”
mentais, e os achados dos estudos de neuroimagem funcional parecem
mais sintomas (sombras) das condições emocionais
estudadas, pois desapareciam com a melhora dos sintomas; podiam
mesmo serem observados em estudos de neuroimagem com atores, no
momento em que “viviam” os dramas que desencadeavam os sintomas
típicos (melancolia, por exemplo) – desaparecendo assim
que paravam de atuar!
O sofrimento e as insuficiências psico-sociais passaram
a ser melhor caracterizadas de maneira penta-dimensional. Cada
pessoa que busca ajuda deve ter um diagnóstico/plano de
tratamento baseado em, pelo menos, 5 aspectos: seu ajuste global;
os vários dramas vividos de longa data e os vividos mais
agudamente; suas condições físicas gerais,
inclusive as neurológicas, nutricionais e neurotóxicas;
a maneira mais habitual de ser da pessoa, suas estratégias
interpessoais preferidas, seus valores, sua história –
inclusive seus problemas intelectuais específicos ou difusos,
constitucionais ou adquiridos.
O principal resultado tem sido uma busca percentualmente menor
de internações em clínicas psiquiátricas,
em decorrência, de um lado, de uma maior competência
médica no tratamento dos quadros tratáveis medicamentosamente,
e, de outro, de uma maior disposição e aceitação
da ajuda especializada por parte das pessoas que sofrem.
Entretanto, paradoxalmente, enquanto mais pacientes muito graves
têm encontrado alívio e reintegração
parcial à vida cotidiana, devido ao grande desenvolvimento
das opções e da aceitação dos recursos
medicamentosos psiquiátricos, por outro lado, menos pacientes
com sintomas leves a moderados – que são a grande maioria!
– têm aceitado um caminho um pouco mais elaborado, mais
enriquecedor, e mais, por assim dizer, curativo, na busca da solução
dos problemas que dão origem aos seus sintomas. A queda
da barreira que separava loucos de “neuróticos”, quanto
à facilidade no acesso à ajuda aos medicamentos,
foi positiva, na medida em que permitiu ao sofredor leve a moderado,
uma mais rápida reabilitação às suas
funções e à produtividade social. Mas foi
também negativa: pacientes leves a moderados antes teriam
acesso a uma ajuda mais reflexiva, na forma de indagações
emocionais e questionamentos existenciais mais fundamentais, abrindo-se
portas e janelas para uma vida mais rica e mais significativa,
justamente a partir da compreensão da linguagem do sintoma.
Na falta do sintoma, um grande número de pessoas passaria
a contentar-se com um mero aumento na tolerância química
a uma vida empobrecida, de modo mais ou menos periclitante – um
verdadeiro retrocesso.
Conquanto não se propugne hoje a privação
dos medicamentos a quem possa ter seu sofrimento atenuado ou abreviado,
e, principalmente, abrandados os prejuízos decorrentes,
de seu sofrimento mental, intelectual e comportamental, não
se recomenda tampouco, havendo as condições e a
oportunidade para tal, que se negligencie o tratamento psicoterápico
das condições psicológicas, existenciais
e estratégicas, determinantes do sofrimento legítimo
de que as manifestações tratadas medicamentosamente
são sintoma.
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[1] © Este texto poderá ser reproduzido, no todo
ou em parte, desde que fornecida, para isto, permissão
expressa de seu autor.
[2] O Dr. Sander Fridman é neuropsiquiatra, psicanalista
e psiquiatra forense. É mestre em Psiquiatria pela UFRJ.
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